Quais Formas de Testosterona Existem?
A testosterona é o hormônio androgênico usado na transição hormonal transmasculina. Ela é responsável pelo desenvolvimento das características sexuais secundárias masculinas e é o único hormônio usado como base na TH transmasculina.
Doses elevadas não aceleram a masculinização. O excesso de testosterona é convertido em estrogênio pela enzima aromatase, o que pode paralisar as mudanças, causar retorno da menstruação e aumentar perigosamente o hematócrito.
Metas de Testosterona no Sangue
Para uma masculinização plena e segura, o objetivo é manter a testosterona total na faixa fisiológica masculina, geralmente entre 300 e 1000 ng/dL.
Níveis cronicamente acima de 1100 ng/dL não trazem benefícios estéticos extras e aumentam desnecessariamente o risco de policitemia (excesso de glóbulos vermelhos). O monitoramento regular garante que a dose seja ajustada para manter os resultados sem causar aromatização excessiva ou sobrecarga ao sistema cardiovascular.
Principais Formas de Usar a Testosterona
Via Injetável (Intramuscular e Subcutânea)
A absorção dos ésteres de testosterona em veículo oleoso ocorre de forma lenta a partir do depósito tecidual. A administração por via subcutânea pode apresentar absorção previsível e níveis séricos estáveis, com menor desconforto em relação à via intramuscular tradicional.
A WPATH SOC8 reconhece a via subcutânea como alternativa válida à intramuscular. No entanto, não iremos abordar a técnica subcutânea neste guia. O nosso guia de aplicação cobre exclusivamente a via intramuscular.
Ésteres disponíveis no Brasil e nomes comerciais:
A testosterona é classificada como substância anabolizante da Lista C5 da Portaria SVS/MS nº 344/1998, sujeita a Receita de Controle Especial. As formulações injetáveis disponíveis incluem:
- Cipionato de Testosterona (Deposteron®): Usa óleo de amendoim como excipiente.
- Mistura de Ésteres (Durateston®): Usa óleo de amendoim como excipiente.
- Undecilato de Testosterona (Nebido® e Hormus®): Usa óleo de rícino como excipiente.
A boa notícia é que hoje o SUS já disponibiliza tanto o Undecilato quanto o Cipionato de testosterona nos serviços de referência do Processo Transexualizador, o que facilita muito o acesso e evita que a pessoa dependa só do mercado privado.
Você tem alergia a amendoim ou soja? Então fique longe do Deposteron (Cipionato) e do Durateston. Essas duas medicações usam óleo de amendoim na fórmula para diluir a testosterona.
Se você for alérgico e injetar isso, pode ter reações gravíssimas como um choque anafilático. Se você faz acompanhamento, avise imediatamente a sua médica sobre a alergia. Se você faz TH por conta própria (DIY), o aviso é em dobro: nunca compre essas duas injeções se tiver risco alérgico.
Nesses casos, as alternativas seguras são o Undecilato (que usa óleo de rícino no lugar do amendoim) ou a boa e velha Testosterona em Gel.
Via Transdérmica - Gel
O gel de testosterona é absorvido pela pele, atuando como reservatório e liberando o hormônio gradualmente na circulação sistêmica, sem metabolismo de primeira passagem hepática. O Androgel® é uma das formulações comerciais usadas.
Disponibilidade:
Disponível em apresentações comerciais e manipuladas, exclusivamente no mercado privado.
Via Oral
As formulações orais de testosterona não são comercializadas regularmente no Brasil. Os derivados alquilados em C17 apresentam alto risco de hepatotoxicidade e não são recomendados nas diretrizes atuais.
Ésteres de Testosterona - Comparação Técnica
| Éster de Testosterona | Nome Comercial | Característica Principal | Disponibilidade no SUS |
|---|---|---|---|
| Undecilato | Nebido® / Hormus® | Ação prolongada | Sim (em serviços de referência) |
| Cipionato | Deposteron® | Ação intermediária | Sim (em serviços de referência) |
| Mistura de Ésteres | Durateston® | Ação intermediária | Não |
| Gel transdérmico | Androgel® / Manipulado | Absorção cutânea | Não |
Por que a Testosterona é o Único Hormônio Usado na Transição Hormonal Transmasculina?
A testosterona exerce efeito supressor direto sobre o eixo hormonal através de um mecanismo de autorregulação (o corpo entende que já tem hormônio suficiente e para de mandar produzir), reduzindo a secreção de GnRH, LH e FSH. Essa ação resulta na diminuição da produção natural de estrogênio pelos ovários.
Diferentemente da terapia hormonal feminizante, a testosterona geralmente não requer o uso concomitante de antiandrogênicos. Outros andrógenos sintéticos não substituem adequadamente a testosterona, especialmente pela ausência de aromatização para estradiol, importante para a manutenção da densidade óssea.
Riscos Clínicos e Monitoramento
O uso de testosterona exige monitoramento clínico e laboratorial periódico, incluindo:
- Hemograma (avaliação de policitemia)
- Perfil lipídico
- Avaliação cardiovascular
- Função hepática
- Sinais de aromatização excessiva
- Densidade mineral óssea em casos específicos
Medicamentos Complementares (Opcionais)
Finasterida e Dutasterida (Inibidores da 5α-Redutase)
A finasterida e a dutasterida são medicamentos conhecidos como inibidores da enzima 5α-redutase (5α-RIs). Na transição hormonal (TH) para pessoas transmasculinas, elas são usadas para finalidades específicas relacionadas ao controle de efeitos colaterais da testosterona, como a alopecia androgenética, mas possuem um papel diferente dos bloqueadores androgênicos usados em terapias feminizantes, como a ciproterona ou a espironolactona.
Mecanismo de Ação
- Bloqueio de DHT: Esses fármacos impedem a conversão da testosterona em diidrotestosterona (DHT), que é um andrógeno significativamente mais potente que a própria testosterona.
- Diferença de Potência: Existem três subtipos da enzima 5α-redutase. A dutasterida inibe todos os três tipos, enquanto a finasterida inibe apenas dois.
- Redução de Níveis: A dutasterida é considerada mais "completa", reduzindo os níveis de DHT no sangue em até 98%, enquanto a finasterida reduz entre 65% e 70%.
Indicações na Terapia Hormonal
- Combate à Calvície e Pelos: O principal uso desses medicamentos em pessoas transmasculinas é o tratamento ou prevenção da perda de cabelo no couro cabeludo (alopecia androgenética) induzida pela testosterona, além de modular o crescimento excessivo de pelos em algumas áreas.
- Uso como Antiandrógeno Auxiliar: Eles não são recomendados como bloqueadores principais de rotina (o objetivo da TH transmasculina é manter níveis elevados de androgênios), mas como auxiliar em casos específicos, como predisposição genética à calvície mesmo com testosterona em níveis terapêuticos.
- Uso em Pessoas Transmasculinas: Podem ser usados por homens trans que desejam manter a testosterona alta mas querem evitar a calvície, embora isso possa prejudicar o crescimento do clitóris e o desenvolvimento de pelos faciais e corporais - efeitos desejados por muitos na masculinização.
Posicionamento das Diretrizes (WPATH SOC8)
As diretrizes internacionais mais recentes (WPATH SOC8, 2022) não recomendam contra o uso rotineiro de inibidores de 5α-redutase em pessoas transmasculinas. A lógica é oposta à das terapias feminizantes: como os níveis de testosterona (e consequentemente de DHT) são elevados pela TH, esses medicamentos podem oferecer benefício clínico na prevenção de alopecia sem comprometer os objetivos da terapia, desde que os riscos sejam avaliados individualmente.
Riscos e Efeitos Colaterais
- Saúde Mental: O uso desses medicamentos está associado a um pequeno risco de depressão, ansiedade e ideação suicida. Isso ocorre porque, além de bloquear o DHT, eles inibem a produção de certos neuroesteroides (como a alopregnanolona) que possuem funções importantes na modulação do humor e do estresse no cérebro.
- Efeitos Sexuais: Podem causar diminuição da libido e redução na sensibilidade genital, o que pode afetar o crescimento e a função do clitóris.
- Síndrome Pós-Finasterida: Existe um debate sobre efeitos colaterais persistentes após a interrupção, mas os relatos são considerados controversos e baseados em evidências de baixa qualidade.
Dosagens Típicas
- Finasterida: 0,05 a 5 mg por dia (via oral)
- Dutasterida: 0,05 a 2,5 mg por dia (via oral)
Acesso Real nas Farmácias Brasileiras
Todas as formulações de testosterona disponíveis no Brasil (injetáveis e gel) são classificadas como substâncias da Lista C5 da Portaria SVS/MS nº 344/1998. Sua dispensação está condicionada à apresentação de Receita de Controle Especial (receita branca em duas vias), com retenção da segunda via pela farmácia.
- SUS: O cipionato de testosterona e o undecilato de testosterona injetáveis são disponibilizados no SUS em serviços especializados de referência do Processo Transexualizador.
- Mercado privado: Cipionato de testosterona, mistura de ésteres e gel de testosterona (incluindo Androgel®) estão disponíveis mediante receita controlada.
- Exceção prática - Gel (Androgel®): Apesar de ser classificado como C5, na prática o gel de testosterona (Androgel®) é frequentemente vendido sem exigência de receita em diversas farmácias no Brasil.
Fontes e Referências Técnicas
Este guia foi construído com base em protocolos internacionais, diretrizes do NHS (Reino Unido) e estudos científicos recentes.
Protocolos e Diretrizes Oficiais
- Protocolo Trans SP (2024): Protocolo para o Cuidado Integral à Saúde de Pessoas Trans, Travestis ou com Vivências de Variabilidade de Gênero no Município de São Paulo. Acesse aqui
- Portaria SVS/MS nº 344/1998: Regulamenta substâncias e medicamentos sujeitos a controle especial no Brasil.
- WPATH SOC8: Standards of Care for the Health of Transgender and Gender Diverse People, Version 8. Acesse aqui
- UCSF Transgender Care: Information on Testosterone Hormone Therapy. Acesse aqui
- Johns Hopkins: Quick Guide: Gender Affirming Hormone Therapy (Transgender and Gender Diverse). Acesse aqui
Bulas e Manuais do NHS
- Bula Deposteron (ANVISA): Acesse aqui (Informações sobre óleo de amendoim).
- Bula Durateston (ANVISA): Acesse aqui (Informações sobre óleo de amendoim).
- NHS Nottinghamshire: Masculinising Hormone Treatment for Adults. Acesse aqui
- NHS Milton Keynes: Shared Care Prescribing Guidance: Trans Masculine. Acesse aqui
- NHS Tavistock & Portman: Ongoing Hormone Monitoring & Management Information. Acesse aqui
- NHS Sheffield: Prescribing Guidelines: Trans man medication. Acesse aqui
Guias de Redução de Danos e Comunidade
- Little Mouse: TRANSMASC DIY HRT (No One Can Stop You). Acesse aqui
- Reddit (Alternative Forms): Brief explanation of alternative forms of hormone therapy. Acesse aqui
- Harm Reduction Coalition: Navigating Access to GAHT Guide. Acesse aqui
- FOLX Health: How to Self-Inject Hormones: A Step-by-Step Guide. Acesse aqui
- Trans Social: TRANS-MASC GUIDE. Acesse aqui
Estudos Científicos (PubMed)
- PubMed (33599731): Erythrocytosis in a Large Cohort of Trans Men Using Testosterone. Acesse aqui
- PubMed (32237098): Prevalence of polycythaemia with different formulations of testosterone therapy. Acesse aqui
- PubMed (35050717): Secondary Polycythemia in Men Receiving Testosterone Therapy Increases Risk of MACE and VTE. Acesse aqui