Como Usar Testosterona
Orientações práticas para a administração de testosterona em suas diferentes formulações (injetáveis e gel transdérmico). A escolha da via, a dosagem correta e o acompanhamento laboratorial garantem níveis hormonais estáveis e seguros durante a transição.
- Uso isolado (Monoterapia): A testosterona é usada sozinha. Ela é potente o suficiente para suprimir a produção de estrogênio por conta própria na quase totalidade dos casos, sem necessidade de tomar nenhum bloqueador hormonal adicional.
- Saúde dos Ossos: O corpo precisa de pelo menos um hormônio sexual dominante (testosterona ou estrogênio) para proteger a densidade óssea. Nunca interrompa a reposição sem acompanhamento para evitar perda óssea precoce e fadiga crônica.
- Cuidado com anabolizantes paralelos: Este guia é focado em transição hormonal para saúde e bem-estar. Não utilize substâncias de fisiculturismo ou mercado paralelo (como Trembolona, Stanozolol, Oxandrolona ou Hemogenin). Elas não possuem protocolos de segurança para transição e trazem toxicidade severa para o fígado e o coração.
1. Formas Disponíveis e Como Escolher
No Brasil, a terapia hormonal transmasculina utiliza principalmente duas vias: as injeções intramusculares (Deposteron, Durateston ou Nebido) e o gel transdérmico (Androgel).
Qual forma escolher? (Resumo rápido)
| Via | Prós | Contras | Ideal para quem... |
|---|---|---|---|
| Cipionato (Deposteron) | Acessível, fácil de aplicar em casa (IM) | Oscilação se não fracionar / Usa óleo de amendoim | Busca custo baixo e praticidade |
| Durateston | Muito barato | Pico inicial mais forte / Usa óleo de amendoim | Prefere injeções a cada 2 a 3 semanas |
| Undecilato (Nebido/Hormus) | Níveis muito estáveis, aplicação a cada 3 meses | Custo alto, volume grande (4 mL), injeção lenta | Quer esquecer da rotina de injeções |
| Gel (Androgel) | Níveis lineares, sem agulha, sem óleos | Aplicação diária, risco de contato com terceiros | Tem medo de agulha ou alergia a óleos |
Alergia ao Óleo de Amendoim e Cuidados com o Rícino
As injeções de testosterona usam óleos carreadores diferentes:
- Deposteron e Durateston: Usam óleo de amendoim. Confira a composição na Bula do Deposteron no Consulta Remédios e na Bula do Durateston no Consulta Remédios.
- Nebido e Hormus (Undecilato): Usam óleo de rícino (óleo de mamona). Confira a composição na Bula do Nebido no Consulta Remédios.
Se você tem alergia alimentar a amendoim ou sensibilidade severa à soja, passe longe do Deposteron e do Durateston pelo risco de choque anafilático. Nesses casos, a alternativa injetável segura é o Undecilato (que usa óleo de rícino) ou a testosterona em gel.
2. Guia Detalhado de Cada Medicação
1. Cipionato de Testosterona (Deposteron®)
O que é: Injeção intramuscular (IM) de cipionato de testosterona (200 mg em 2 mL) dissolvida em óleo de amendoim. É a formulação injetável mais comum e acessível nas farmácias brasileiras.
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- Rotina e dosagens usuais:
- Aplicação quinzenal: 200 mg (1 ampola) a cada 14 a 21 dias.
- Fracionamento semanal: 50 a 100 mg por semana. Muitas pessoas preferem essa divisão por manter níveis sanguíneos mais lineares, reduzindo oscilações de humor e energia.
- Cuidados com fracionamento de ampolas: O Deposteron vem em ampolas de vidro de dose única sem conservantes. Guardar a sobra na ampola aberta ou na seringa por vários dias envolve risco real de contaminação bacteriana e abscesso muscular. Se optar pelo fracionamento, mantenha rigorosa técnica asséptica e discuta a viabilidade com quem prescreve.
- Como aplicar: Injeção intramuscular profunda (glúteo ou coxa) com técnica em Z para selar o óleo no músculo. Alterne o lado a cada aplicação. Consulte o nosso Guia Completo de Técnicas Injetáveis.
2. Mistura de Ésteres (Durateston®)
O que é: Associação de quatro ésteres de testosterona (propionato, fenilpropionato, isocaproato e decanoato), totalizando 250 mg em 1 mL dissolvidos em óleo de amendoim.
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- Rotina e dosagens usuais: 250 mg (1 ampola) a cada 21 a 28 dias (o intervalo mais frequente é a cada 21 dias).
- Atenção ao pico hormonal inicial: Por conter propionato (éster de ação ultra-rápida), o Durateston provoca uma subida hormonal aguda nos primeiros 2 a 3 dias. Isso pode causar oscilações de humor, irritabilidade ou surtos de acne nesse início de ciclo.
- Como aplicar: Mesmo procedimento intramuscular do Deposteron, utilizando agulha adequada e assepsia rigorosa. Veja o passo a passo no Guia Completo de Técnicas Injetáveis.
3. Undecilato de Testosterona (Nebido® / Hormus®)
O que é: 1000 mg de undecilato de testosterona em 4 mL de óleo de rícino, uma formulação de depósito prolongado que permite intervalos de quase três meses entre as doses. É uma alternativa segura para pessoas alérgicas ao óleo de amendoim.
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- Rotina e dosagens usuais:
- Dose de carga inicial: 1000 mg no Dia 0 e uma segunda aplicação após 6 semanas (para atingir o nível estável mais rápido).
- Manutenção: 1000 mg a cada 10 a 14 semanas (intervalo habitual de 12 semanas / 84 dias).
- Técnica profissional, monitoramento e aplicação lenta obrigatória:
- O volume da ampola é grande (4 mL) e o óleo de rícino é muito viscoso.
- A injeção deve ser aplicada estritamente por profissional de saúde em ambiente clínico ou farmácia, sempre no músculo profundo do glúteo. Não faça autoaplicação.
- A injeção precisa ser extremamente lenta (no mínimo 2 minutos empurrando o êmbolo). Aplicações rápidas aumentam o risco de microembolismo pulmonar oleoso (POME), manifestado por tosse súbita, aperto no peito e falta de ar.
- Nunca aplique óleo de rícino na via subcutânea.
- Controle do hematócrito: Mesmo sem causar picos bruscos, o undecilato injetável ainda faz o hematócrito subir acima de 50% com mais frequência do que o gel (Madsen et al., 2021). Por isso, faça hemograma regularmente; se o sangue engrossar, o médico pode espaçar a aplicação (de 12 para 14 semanas, por exemplo).
4. Gel Transdérmico (Androgel®)
O que é: Gel de testosterona a 16,2 mg/g para absorção diária pela pele. Mantém níveis hormonais estáveis ao longo do dia, sem os picos e vales das injeções e sem necessidade de agulhas.
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- Apresentações e dosagens usuais:
- Androgel® Pump (16,2 mg/g): Cada acionamento completo (pump) libera 1,25 g de gel contendo 20,25 mg de testosterona.
- 1 pump/dia (20,25 mg): Microdosagem ou início progressivo.
- 2 pumps/dia (40,5 mg): Dose inicial padrão.
- 3 a 4 pumps/dia (60,75 a 81 mg): Faixa de manutenção habitual.
- Androgel® Sachê (1% ou 16,2 mg/g): 1 sachê ao dia (dose única fixa).
- Androgel® Pump (16,2 mg/g): Cada acionamento completo (pump) libera 1,25 g de gel contendo 20,25 mg de testosterona.
- Onde aplicar:
- Aplique exclusivamente nos ombros e na parte superior dos braços, sobre pele limpa, seca e saudável.
- Não aplique no abdome: A formulação pump a 1,62% foi testada e aprovada apenas para ombros e braços.
- Onde nunca aplicar: Jamais passe o gel na região genital (clitóris ou mucosas) nem nas mamas. O álcool da base provoca queimação e irritação tecidual severa.
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- Passo a passo da rotina diária:
- Pele limpa e seca: Aplique preferencialmente pela manhã após o banho.
- Pelos curtos: Se houver muitos pelos na área, apare com tesoura ou máquina. Nunca raspe com lâmina logo antes de aplicar, pois as microfissuras e a base alcoólica causarão queimação e irritação na pele.
- Espalhar e secar: Distribua o gel em camada fina. Aguarde secar totalmente (2 a 5 minutos) antes de se vestir para a roupa não absorver o produto.
- Lavar as mãos: Lave as mãos com água e sabão imediatamente após aplicar.
- Cobrir a área: Vista camiseta de manga para cobrir os ombros e braços antes de ter contato físico próximo com outras pessoas ou pegar animais no colo.
A testosterona em gel pode ser absorvida acidentalmente por contato direto da pele ou lambidas:
- O que pode acontecer com cães e gatos: o contato com resíduos de gel desregula os hormônios do pet. Em fêmeas, pode causar inchaço na vulva e aumento visível do clitóris; em machos e filhotes, pode provocar alterações genitais, queda de pelos e agressividade.
- O risco para crianças e gestantes: a exposição repetida pode induzir sinais precoces de puberdade em crianças (crescimento de pelos e acne) e complicações na gestação.
Cuidados práticos para o dia a dia:
- Lave as mãos com água e sabão logo após espalhar o produto.
- Espere secar e vista uma camiseta cobrindo ombros e braços antes de pegar pets no colo ou ter contato próximo com outras pessoas.
- Não deixe animais lamberem a pele onde o gel foi aplicado.
Nunca colha sangue no mesmo braço onde aplicou o gel. Resíduos microscópicos na pele contaminam a ponta da agulha na punção venosa, gerando resultados falsamente astronômicos (acima de 2.000 ng/dL). No dia da coleta e no anterior, passe o gel apenas no braço oposto ao do exame.
3. Tabela Consolidada de Dosagens e Manutenção
Tabela de referência prática combinando os protocolos médicos brasileiros e as diretrizes internacionais da WPATH SOC8 e Endocrine Society:
| Medicação | Via | Dose Inicial | Dose Habitual de Manutenção | Frequência Típica | Observações Clínicas |
|---|---|---|---|---|---|
| Cipionato (Deposteron®) | Intramuscular | 100 a 200 mg | 50 a 100 mg (semanal) ou 200 mg (quinzenal) | A cada 7 a 14 dias | Mais fácil de fracionar para evitar oscilações. |
| Mistura de Ésteres (Durateston®) | Intramuscular | 250 mg | 250 mg | A cada 21 a 28 dias | Pico inicial mais forte nos primeiros dias. |
| Undecilato (Nebido®/Hormus®) | Intramuscular profunda | 1000 mg (repetir em 6 semanas) | 1000 mg | A cada 10 a 14 semanas | Aplicação clínica obrigatória, injeção lenta (2 min). |
| Gel Androgel® (Pump) | Transdérmica | 1 a 2 pumps (20 a 40 mg) | 2 a 4 pumps (40 a 81 mg) | Diária (manhã) | Níveis muito estáveis; aplicar em ombros e braços. |
Essas faixas são parâmetros de partida. Não existe dose universal: o ajuste de miligramas deve ser feito com base no resultado dos seus exames laboratoriais e nas metas clínicas da sua transição.
4. Monitoramento e Exames de Sangue
O acompanhamento laboratorial garante que a virilização ocorra de forma segura, mantendo a testosterona na faixa masculina de referência (300 a 1.000 ng/dL) sem sobrecarregar a circulação sanguínea.
- Exames essenciais periódicos:
- Hemograma completo (especialmente o Hematócrito): O aumento de glóbulos vermelhos é o efeito mais comum da testosterona. Níveis de hematócrito acima de 50% a 52% exigem ajuste de dose para evitar riscos cardiovasculares.
- Testosterona Total e Estradiol: Para avaliar se a dose está suprimindo o estrogênio e mantendo a faixa masculina.
- Perfil Lipídico, Função Hepática e Glicemia: Para monitorar colesterol e saúde metabólica.
- Frequência recomendada: Antes de iniciar a TH, aos 3 meses, aos 6 meses, aos 12 meses e anualmente após a estabilização.
- O momento exato da coleta laboratorial:
- Para Injeções (Nível de Vale): O sangue deve ser colhido no dia da próxima injeção, antes de aplicar a nova dose. Isso mede o ponto mais baixo do hormônio no seu corpo, garantindo que o nível não caiu abaixo do ideal antes da próxima aplicação.
- Para o Gel Transdérmico: Colha o sangue 4 a 6 horas após a aplicação matinal do gel, obrigatoriamente no braço oposto ao que recebeu o produto.
5. Acesso nas Farmácias, Receitas e Preços
Regras de Receita Médica no Brasil
- Injetáveis (Deposteron, Durateston, Nebido/Hormus): Enquadram-se na Lista C5 da Portaria SVS/MS nº 344/1998 (substâncias anabolizantes). Exigem Receita de Controle Especial em duas vias (branca), com retenção da 1ª via pela farmácia e validade de 30 dias após a emissão. Para as opções injetáveis, a retenção é cumprida com rigor estrito em todo o país. Na compra pela internet com entrega, o entregador recolhe a via física da receita no ato da entrega.
- Gel Transdérmico (Androgel): Pela legislação sanitária federal, o gel também pertence à Lista C5 e exige a mesma receita de controle especial em duas vias com retenção. Na prática do varejo, entretanto, usuários relatam que algumas drogarias exercem fiscalização mais flexível no balcão para o gel em comparação às ampolas, embora a exigência legal de receita seja a mesma para todas as formulações de testosterona.
Comparadores de Preços e Redes de Farmácias
Para verificar estoque e comparar os preços de cada marca antes de comprar, utilize os comparadores online e redes de abrangência nacional:
- Comparadores de Preço:
- Grandes Redes de Farmácias:
Para a análise detalhada de custos mensais por medicação, dicas de compra de ampolas e orientações sobre acesso pelo SUS, consulte o nosso guia dedicado de Acesso nas Farmácias e Custos.
6. Fontes e Referências Técnicas
Referências baseadas em protocolos clínicos internacionais, diretrizes do NHS (Reino Unido) e literatura médica:
Protocolos e Diretrizes Oficiais
- Protocolo Trans SP (2024): Protocolo para o Cuidado Integral à Saúde de Pessoas Trans, Travestis ou com Vivências de Variabilidade de Gênero no Município de São Paulo. Acesse aqui
- WPATH SOC8 (2022): Coleman E, et al. Standards of Care for the Health of Transgender and Gender Diverse People, Version 8. Int J Transgend Health, 23(Suppl 1):S1-S259. DOI: 10.1080/26895269.2022.2100644. PMID: 36238954.
- UCSF Transgender Care: Information on Testosterone Hormone Therapy. Acesse aqui
- Johns Hopkins: Quick Guide: Gender Affirming Hormone Therapy (Transgender and Gender Diverse). Acesse aqui
Manuais do NHS (Reino Unido)
- NHS Nottinghamshire: Masculinising Hormone Treatment for Adults (Masculinising Hormones Information Sheet). Acesse aqui
- NHS Milton Keynes: Shared Care Prescribing Guidance for Treatment of Gender Dysphoria in People Assigned Female at Birth. Acesse aqui
- NHS Tavistock & Portman: Ongoing Hormone Monitoring & Management Information for Treatment of Gender Incongruence. Acesse aqui
- NHS Sheffield: Prescribing Guidelines: Trans man medication. Acesse aqui
Guias Informativos e Comunidade
- Little Mouse: TRANSMASC DIY HRT (No One Can Stop You). Acesse aqui
- Reddit (Alternative Forms): Brief explanation of alternative forms of hormone therapy in transmasculine people. Acesse aqui
- Harm Reduction Coalition: Navigating Access to Gender-Affirming Hormone Therapy Guide. Acesse aqui
- FOLX Health: How to Self-Inject Hormones: A Step-by-Step Guide. Acesse aqui
- Trans Social: TRANS-MASC GUIDE. Acesse aqui
Estudos Científicos (PubMed)
- Madsen et al. (2021): Erythrocytosis in a Large Cohort of Trans Men Using Testosterone: A Long-Term Follow-Up Study on Prevalence, Determinants, and the Effect of Switching Preparations. J Clin Endocrinol Metab, 106(6):1710-1717. DOI: 10.1210/clinem/dgab128. PMID: 33599731.
- Nolan et al. (2021): Prevalence of polycythaemia with different formulations of testosterone therapy in transmasculine individuals. Intern Med J, 51(6):898-903. DOI: 10.1111/imj.14846. PMID: 32237098.
- Ory et al. (2022): Secondary Polycythemia in Men Receiving Testosterone Therapy Increases Risk of Major Adverse Cardiovascular Events and Venous Thromboembolism in the First Year of Therapy. J Urol, 207(6):1295-1301. DOI: 10.1097/JU.0000000000002431. PMID: 35050717.