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Como o Corpo Processa o Estradiol

Quando você toma estradiol, ele não vai direto pro sangue e pronto. O caminho que o hormônio faz, e quanto dele realmente chega funcionando, depende da via que você usa.

Essa diferença importa porque determina quanto do que você toma realmente vira estradiol ativo no seu corpo, quanto vira estrona (que é bem mais fraca), e quanto risco extra você coloca no fígado.


Via oral (comprimidos engolidos)​

O comprimido é absorvido no intestino e passa naturalmente pelo fígado antes de chegar ao resto do corpo. Isso se chama efeito de primeira passagem.

O processo técnico: o fígado converte parte do estradiol em estrona (E1), que é uma forma de estrogênio com potência ajustada. Devido a essa metabolização inicial, a biodisponibilidade da via oral é de aproximadamente 5%, o que explica por que as doses comerciais de comprimidos (como 2mg ou 4mg) são numericamente maiores do que as de gel ou injeções. A dose é calculada exatamente para que a quantidade final que chega ao sangue seja a ideal para a transição.

Essa passagem pelo fígado também estimula a produção de proteínas de coagulação. Em pessoas jovens e sem fatores de risco, esse impacto é monitorado através de exames de sangue regulares para garantir a total segurança.

Via transdérmica (gel ou adesivo)​

O hormônio é absorvido pela pele direto para a corrente sanguínea, sem passar pelo fígado. O resultado é uma menor conversão em estrona, níveis mais estáveis e menor impacto inicial nas proteínas de coagulação.

A absorção depende do local da pele, da espessura, da integridade e até do suor. No caso do gel, o tempo que ele leva para ser absorvido pela metade na pele gira em torno de 37 horas. Por isso, dividir a aplicação a cada 12h ajuda a manter os níveis mais constantes.

Via injetável (intramuscular)​

As injeções usam ésteres de estradiol (como valerato, cipionato ou enantato) dissolvidos em óleo. O óleo forma um "depósito" no músculo, e o estradiol vai sendo liberado aos poucos, sem passar pelo fígado.

A biodisponibilidade é de 100% (contra os ~5% da via oral). Além de perder menos hormônio, os níveis costumam ser mais altos e estáveis.

Cada éster tem uma velocidade diferente:

  • Valerato de estradiol: duração no corpo de 4 a 5 dias
  • Cipionato de estradiol: duração no corpo de 8 a 10 dias
  • Enantato de estradiol: presente na Injeção Mensal (Perlutan e similares), liberação lenta do estradiol em base de óleo de gergelim ou amendoim (se você tem alergia a sementes, confira o alerta de uso).

Via sublingual (comprimidos na boca)​

Os mesmos comprimidos da via oral, mas dissolvidos embaixo da língua. Parte do hormônio é absorvido pela mucosa direto pro sangue, desviando parcialmente do fígado. A biodisponibilidade melhora em relação à oral, mas os níveis flutuam mais ao longo do dia.


Comparação rápida​

ViaBiodisponibilidadePassa pelo fígado?Estabilidade dos níveis
Oral~5%Sim (primeira passagem)Flutuante
SublingualMaior que oralParcialmenteMuito flutuante
Gel/Adesivo3-10% (absorção cutânea)NãoEstável
Injetável100%NãoEstável (com picos leves)

O que é um "depot"?​

Quando se fala em "injeção depot", é uma injeção formulada pra liberar o medicamento devagar no corpo, em vez de fazer efeito de uma vez e acabar.

Por isso uma injeção a cada 7-14 dias funciona: o depósito sustenta os níveis entre uma aplicação e outra, sem precisar tomar algo todo dia.


Fontes e Referências Técnicas​

Literatura Farmacocinética e Ensaios Clínicos
  1. Farmacologia de Estrogênios e Progestágenos por Diferentes Vias: Kuhl H. Pharmacology of estrogens and progestogens: influence of different routes of administration. Climacteric, 8(sup1):3-63, 2005. DOI: 10.1080/13697130500148875. PMID: 16112947. (Referência seminal sobre a biodisponibilidade oral de aproximadamente 5%, conversão hepática em estrona e impacto diferencial nas proteínas de coagulação).
  2. Farmacocinética de Dose Única Oral vs. Sublingual: Price TM, et al. Single-dose pharmacokinetics of sublingual versus oral administration of micronized 17beta-estradiol. Obstet Gynecol, 89(3):340-345, 1997. DOI: 10.1016/s0029-7844(96)00513-3. PMID: 9052581.
  3. Farmacocinética e Risco Tromboembólico do Estradiol: Stanczyk FZ, et al. Ethinyl estradiol and 17beta-estradiol in combined oral contraceptives: pharmacokinetics, pharmacodynamics and risk assessment. Contraception, 87(6):706-727, 2013. DOI: 10.1016/j.contraception.2012.12.011. PMID: 23375353.
  4. Cinética de Liberação de Ésteres Injetáveis de Depósito: Düsterberg B, Nishino Y. Pharmacokinetic and pharmacological features of oestradiol valerate and oestradiol enanthate. Maturitas, 4(4):315-324, 1982. DOI: 10.1016/0378-5122(82)90064-0. PMID: 7169965.
  5. Reservatório Estrutural da Pele e Absorção Transdérmica: Järvinen A, Granander M, Nykänen S, Laine T, et al. Steady-state pharmacokinetics of oestradiol gel in post-menopausal women: effects of application area and washing. Br J Obstet Gynaecol, 104 Suppl 16:14-18, 1997. DOI: 10.1111/j.1471-0528.1997.tb11562.x. PMID: 9389778.