Espironolactona
A espironolactona não deve ser tomada isoladamente. O bloqueador apenas reduz a ação da testosterona; o desenvolvimento das características femininas depende do estrogênio.
Ficar sem nenhum hormônio sexual predominante no sangue pode causar fadiga, perda de massa óssea a longo prazo, ondas de calor e alterações de humor. Use a espironolactona sempre associada a uma fonte de Estradiol (comprimidos, gel ou adesivo). Se você utiliza injeções combinadas de algestona acetofenida e enantato de estradiol, a maioria das pessoas atinge a supressão hormonal apenas com a injeção e dispensa a espironolactona. A associação só deve ser considerada se, após a estabilização das aplicações, os exames no ponto mais baixo da dose indicarem testosterona acima de 50 ng/dL ou escape androgênico persistente.
O Que É
Um comprimido branco ou bege que bloqueia a ação da testosterona nos receptores celulares e atua como diurético poupador de potássio.
Ver foto ilustrativa da caixa (Espironolactona)

Dosagens e Parâmetros Clínicos
- Protocolos Brasileiros (SUS): Começam com 50 mg/dia, subindo para 100 mg (dose de manutenção).
- Protocolos Internacionais (WPATH): Faixa padrão entre 100 mg e 200 mg/dia.
Embora alguns manuais antigos citassem 300 mg ou 400 mg, a dose máxima recomendada por segurança é de 200 mg por dia. Passar desse limite eleva o risco de desidratação, pressão baixa e acúmulo de potássio no sangue (hipercalemia), sem trazer benefício extra para o desenvolvimento feminino.
Como Dividir e Montar a Dose
A espironolactona é comercializada em comprimidos de 50 mg ou 100 mg. Diferente de outros bloqueadores, possui meia-vida curta no organismo, exigindo a divisão da dose total em duas tomadas diárias para manter níveis terapêuticos estáveis.
Tomar a segunda dose tarde da noite faz você acordar de madrugada para urinar (noctúria), prejudicando o descanso. A recomendação prática é:
- Primeira dose: pela manhã, junto com o café da manhã.
- Segunda dose: no final da tarde ou início da noite (entre 18h e 19h, junto ao jantar), e não logo antes de dormir.
- Para a meta de 100 mg/dia: Tome 50 mg pela manhã e 50 mg no início da noite (18h às 19h).
- Para a meta de 200 mg/dia: Tome 100 mg pela manhã e 100 mg no início da noite (18h às 19h).
Como Tomar: Passo a Passo
- Tome junto às refeições: A absorção (biodisponibilidade) da espironolactona aumenta consideravelmente quando ingerida com alimentos. A ingestão junto a uma refeição também previne náuseas e queimação gástrica.
- Divida em dois momentos: Tome a primeira dose pela manhã e a segunda entre 18h e 19h, evitando tomar imediatamente antes de deitar.
- Engula com água abundante: Tome os comprimidos inteiros com um copo cheio de água (cerca de 200 mL).
- Beba muita água ao longo do dia: Mantenha a ingestão de pelo menos 2 litros de água diariamente e não restrinja o consumo normal de sal, pois o medicamento estimula a perda de sódio enquanto poupa potássio.
Cuidados de Segurança e Efeitos Colaterais
A espironolactona é um diurético que poupa potássio, ou seja, faz os rins reterem mais desse mineral no sangue. Diretrizes médicas como o WPATH SOC8 (2022) e a Endocrine Society (2017) recomendam medir potássio e creatinina antes de começar e nos primeiros meses de tratamento.
Em pessoas trans jovens (abaixo de 45 anos), saudáveis e sem problemas nos rins, pesquisas clínicas mostram que o risco de o potássio subir para níveis perigosos é muito baixo, ficando entre 0,8% e 2,2% (Gupta et al., 2021; Millington et al., 2019; Hayes et al., 2022). Na imensa maioria das vezes, são apenas pequenas variações temporárias e sem sintomas.
Já para quem tem mais de 45 anos, histórico de doença nos rins ou toma remédios que também retêm potássio, esse risco aumenta (chegando a cerca de 8% no estudo de Hayes et al., 2022). Nesses casos, o controle por exames laboratoriais precisa ser bem mais atento, pois o excesso acentuado de potássio pode interferir nos batimentos cardíacos. Para conferir a lista completa de exames de rotina, consulte o Guia de Exames Hormonais.
A espironolactona é originalmente um medicamento anti-hipertensivo diurético. Em pessoas jovens que já possuem pressão arterial normal ou mais baixa (como 10/6 ou 11/7), iniciar direto com 100 mg costuma provocar episódios de tontura ou escurecimento visual ao se levantar rápido da cama ou do sofá.
Para mitigar esse incômodo:
- Começar com dose inicial menor (50 mg/dia) ajuda o sistema circulatório a se habituar.
- Mantenha a hidratação abundante ao longo do dia.
- Ao acordar ou levantar do sofá, sente-se primeiro por alguns instantes antes de ficar totalmente de pé.
- Consuma sal normalmente na comida: como a espironolactona elimina água e sódio pela urina, cortar o sal da alimentação pode piorar a fraqueza e a tontura.
- Gordura na barriga: Relatos informais às vezes culpam a espironolactona pelo acúmulo de gordura abdominal. A redistribuição de gordura na transição depende dos níveis de estradiol e da genética de cada pessoa, e não do bloqueador.
- Crescimento dos seios: Outro receio comum é o de que a espironolactona travaria o desenvolvimento das mamas. Estudos de acompanhamento com mulheres trans (como o estudo europeu ENIGI, de Blok et al., 2021) acompanharam o crescimento ao longo de anos e constataram que o ganho final de volume mamário é igual entre quem usa espironolactona ou ciproterona.
A espironolactona atua principalmente competindo com a testosterona e o DHT pelos receptores androgênicos nos tecidos periféricos. Quando associada ao Estradiol (que exerce o freio central sobre o LH), o conjunto reduz a produção gonadal e bloqueia a ação da testosterona residual nas células.
Não combine espironolactona com:
- Medicamentos anti-hipertensivos inibidores da ECA (ex.: enalapril, captopril) ou BRAs (ex.: losartana, valsartana)
- Antibiótico Bactrim (sulfametoxazol-trimetoprima)
- Anti-inflamatórios não esteroides (AINEs como ibuprofeno, diclofenaco ou nimesulida) em uso frequente
- Suplementos de potássio ou substitutos de sal ricos em cloreto de potássio (sal light)
Fontes e Referências Técnicas
Referências Bibliográficas e Diretrizes Clínicas
- Monitoramento de Potássio na Espironolactona: Hayes H, et al. The Utility of Monitoring Potassium in Transgender, Gender Diverse, and Nonbinary Individuals on Spironolactone. J Endocr Soc, 6(11):bvac133, 2022. DOI: 10.1210/jendso/bvac133. PMID: 36267595.
- Monitoramento de Potássio em Adolescentes Trans: Millington K, Liu E, Chan YM. The Utility of Potassium Monitoring in Gender-Diverse Adolescents Taking Spironolactone. J Endocr Soc, 3(5):1031–1038, 2019. DOI: 10.1210/js.2019-00030. PMID: 31065620.
- Concentrações de Potássio em Mulheres Trans: Gupta P, et al. Potassium Concentrations in Transgender Women Using Spironolactone: A Retrospective Chart Review. Endocr Pract, 28(11):1147-1151, 2022. DOI: 10.1016/j.eprac.2022.08.007. PMID: 35964859.
- Desenvolvimento Mamário e Antiandrógenos (Estudo ENIGI): de Blok CJM, et al. Sustained Breast Development and Breast Anthropometric Changes in 3 Years of Gender-Affirming Hormone Treatment. J Clin Endocrinol Metab, 106(2):e782-e790, 2021. DOI: 10.1210/clinem/dgaa841. PMID: 33206172.
- Diretrizes Endocrine Society (2017): Hembree WC, et al. Endocrine Treatment of Gender-Dysphoric/Gender-Incongruent Persons: An Endocrine Society Clinical Practice Guideline. J Clin Endocrinol Metab, 102(11):3869-3903. DOI: 10.1210/jc.2017-01658.
- Diretrizes WPATH SOC8 (2022): Coleman E, et al. Standards of Care for the Health of Transgender and Gender Diverse People, Version 8. Int J Transgend Health, 23(Suppl 1):S1-S259. DOI: 10.1080/26895269.2022.2100644.
- UCSF Guidelines for Gender-Affirming Care (2016): Deutsch MB, et al. Guidelines for the Primary and Gender-Affirming Care of Transgender and Gender Nonbinary People. Center of Excellence for Transgender Health, University of California, San Francisco. Acesse aqui
- Transfeminine Science — Espironolactona e Supressão de Testosterona: Aly W. A Review of Studies on Spironolactone and Testosterone Suppression in Cisgender Men, Cisgender Women, and Transfeminine People. Transfeminine Science, 2018. Acesse o artigo
- Transfeminine Science — Espironolactona e Gordura Visceral: Aly W. Spironolactone and Claims About Increased Visceral Fat in Transfeminine People. Transfeminine Science, 2020. Acesse o artigo